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Dança da Chuva

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O post de hoje balança mas não cai, já que escrevo usando uma conexão à lenha que ameaça ir pras cucuias a qualquer momento. Tudo a ver com o tema do dia, que é analógico mesmo. Embora não tenha ido para Milão por 3.983 motivos (onde tá rolando a edição 2008 do Salão do Móvel), nos últimos dias estive conectado, via satélite (leia-se os nossos amigos e colaboradores internacionais), com os hypes da feira de design mais trendie do planeta. Por lá, é óbvio, fala-se de sustentabilidade e dos muitos criadores que embarcaram numa vibe mais orgânica tanto nas formas como na matéria. Resgates à parte, na essência, é tudo tecnologia que não acaba mais – me aguardem, pois semana que vem conto tudo para vocês.

Agora, com os pés literalmente no chão, no começo de um feriadão merecidíssimo após dois fechamentos encavalados, saí feito uma flecha de Sampa para recarregar as bateras num sítio não muito longe de lá – mas não perto o bastante para ouvir barulho, pegar trânsito e tossir com a fumaça da urbe. Rendido neste recôndito caipirinha, roendo capim e pensando na tristeza do Jeca, troco a mobília grifada da vez que meus amigos estão pinçando no “estrangeiro”, pela pureza de outras tribos.

Explico. Como em quase todo o Estado, nas cercanias aqui de Socorro – não zombe do nome, porquê a cidade é tudo de bão -, ainda há remanescentes de comunidades indígenas, os verdadeiros donos desta terra tomada por nossos ancestrais europeus (meus avós são italianos, então me incluo na máfia dos imigrantes, sem negar o sangue tupiniquim da mistura). Passeando pelos arredores de Help City, dei de cara com umas cerâmicas tipo marajoara (digo “tipo” porquê simplesmente se parecem e ninguém conseguiu me explicar a etnia correta dos artesãos) que estavam sendo vendidas a um preço ridículo – R$ 3,50 um pratinho com umas gravações incríveis, que devem ter levado horas – e muitas gotas do suor de alguém. Ultrajante!

Como hoje se comemora o Dia do Índio, qualquer discurso brasilianista aqui vai soar romântico ou demagogo demais, então, substituo as palavras por alguns atabaques tapajós e marajoaras que expressam um pouquinho o valor cultural da arte e do artesanato produzido pelas tribos brasucas. Taí uma referência excêntrica de décor quase tão antiga para nós quanto as naus de Cabral que atracaram na Bahia – embora considerados artefatos pagãos pelos colonizadores, segundo consta, os caciques portugas adoravam dar pinta com nossos penachos, entre quatro paredes. Nos anos 60 e 70, quem não tinha um cocar pendurado na parede, boa gente não era.

Na minha taba vertical 4×4 tenho gamelas, cestarias e bandejas que também comprei a preço de banana no Depósito Kariri, na esquina da Arthur de Azevedo com a Henrique Schaumann. Pena que não tenho como mostrá-los agora, mas se vocês quiserem, posto quando voltar! O fato é que isso tudo é muito bacana para ser assim, tão desprezado. No ano do Brasil da França, eu estava lá e pude ver o quanto a cultura indígena era valorizada por eles, com exposições nas grandes galerias e arte tribal e plumária (vintage, é claro, porquê hoje isso é sabiamente proibido por questões ecológicas) vendidas a preços exorbitantes – com repasse legal para ONGs ligadas à Funai. Tá?

Para tocar o seu coração, colo aqui a canção Amor de Índio, composição de Beto Guedes com o queridão Ronaldo Bastos (que durante a edição “Música Fotográfica Brasileira”, que a Vogue produziu há alguns anos, ficou internado aqui com a gente um tempão, contando causos do arco da velha). Adoro essa versão ao vivo da Bethânia, que encerrava o seu show Maricotinha. Reparem como ela se entrega ao verso “todo amor é sagrado”. Lindo. E nada pode ser mais índio – e sagrado – do que o amor.

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Written by AllexInCasa

abril 19, 2008 às 5:15 am

Publicado em Sem categoria

7 Respostas

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  1. Onde comprar ceramicas marajoara? bjs e parabéns.

    kelly

    abril 21, 2008 at 2:43 am

  2. Amo a Bethania. Bela escolha.

    Sarah

    abril 21, 2008 at 3:24 am

  3. Lindo …

    Rodrigo Almeida

    abril 21, 2008 at 3:50 am

  4. Descobri seu blog há pouco tempo, parabéns! E obrigada, seu tempo é precioso, mas seus comentários e dicas também.

    Paula

    abril 21, 2008 at 10:24 am

  5. Que música é essa??????????? Tô chorando…

    Leo

    abril 21, 2008 at 12:06 pm

  6. Állex meu caro: seu blog e coisa fina mesmo.

    Tenho varias sugestoes que quer lhe passar por e-mail.

    um beijo

    Judith

    abril 22, 2008 at 12:33 am

  7. Acho que finalmente achei um lugar onde posso comentar. Tem coisa mais deprimente que entrar num supermercado ou grande loja e encontrar aquela cestaria chinesa, em personalidade, quando aqui na terrinha há coisas lindas sendo esquecidas, abandonadas? Tenho uma cestinha que tem a minha idade feita no interior de Minas, guardava brinquedos nela! Está intacta bonita e resistente. Estamos matando nosso artesanato, artesões e a natureza com as cestinhas de palha fraquinha e linha de montagem vinda da China!

    Jacqueline

    maio 2, 2008 at 9:04 pm


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