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Continuando a degustação do bife à milanesa como prato principal da semana, é claro que o baião-de-dois Fernando e Humberto Campana anda arrasando por lá, só para variar um pouquinho.

Superdestaques da edição 2008 do Salão do Móvel, a Aguapé Chair, encomendada pela Edra, e a coleção de toys para a Alessi, estão dando o que falar. Os toys eu fico devendo, já que tenho uma notinha-surpresa programada só sobre essa estética (que eu adoro) para a próxima semana. Daí escolhi essas duas versões da Aguapé para ilustrar o drops do dia, em clima bem hot, hot, hot.

Repare no shape eco-tecno da peça, que simula pétalas de flores no recorte a laser das placas de couro (que pode ser natural, branco, pink ou verde). A inspiração do desenho foi uma vitória-régia – sacou as perninhas sugerindo o caule da planta?

Acho que ninguém da imprensa brasileira noticiou esses lançamentos ainda – pelo menos não que eu tenha visto (será que eu tô por fora?). Furo ou não, aproveito a prerrogativa do último grito dos manos aí em cima, para fazer um flashback preguiçoso (mas contundente) aí embaixo: direto dos nossos arquivos nada empoeirados, a entrevista exclusiva que fiz com os big brothers para a Casa Vogue de agosto do ano passado (parece que foi ontem – e de fato, foi). E nem tente farejar naftalina no ar, porquê a dupla dinâmica tá sempre tão na frente de tudo e de todos, que o mexerico continua atual.

Código genético

Um bate-papo com os irmãos Fernando e Humberto Campana, a dupla que subverteu a mobília em nome dos novos tempos e colocou o design made-in-Brasil no topo do mundo

Por Allex Colontonio

Oito anos de diferença separam os irmãos Fernando e Humberto, meninos do interior paulista que trocaram as cascatas de Brotas, terra recortada por cânions e cachoeiras, pelas corredeiras ariscas de um rio chamado design. Mas a linha do tempo é quase nada comparada à poética do traço que os une. E são essas formas etéreas, mutantes, quase vivas, avessas a qualquer silhueta conhecida antes deles, que converteram seu nome numa senha de acesso ao circuito internacional, em sua expressão mais vanguardista. Na órbita onde flutuam a arte e o design, suas peças falam de um Brasil cheio de alegorias, mas sem nenhum folclore. Lá estão o nosso artesanato, as manufaturas, nossas fibras e vestígios: tudo aquilo que rejeitamos e para o qual eles sempre inventaram novo uso enquanto poucos bradavam odes à sustentabilidade. São contornos conceituais que não desprezam a função, estruturas que podem impressionar tanto pela complexidade quanto pela simplicidade, pela construção como pela desconstrução, pela subversão da matéria, pela graça. Fios emaranhados, linhas entrelaçadas, naturezas cruas, resíduos industriais, colchas de retalhos, bonecas de pano, travessuras de criança peralta. Para eles, nunca houve limites. Tem sido assim desde os primeiros esboços, quando a série de cadeiras Desconfortáveis sinalizou o norte da dupla e, pouco mais tarde, quando a poltrona Vermelha cruzou as fronteiras para ganhar o mundo. Vinte e cinco outonos se passaram desde o primeiro croqui. Vieram as exposições no MoMa, de Nova York, o catarse nas feiras de design, os contratos com a Edra, Alessi, Artecnica e Magis – titãs do mercado que produzem suas criações lá fora. Mas eles continuam simples, generosos e curiosos, investigando linhas, volumes e texturas no estúdio com jeitão de ateliê, onde a fita rola sem script definido ou embates zodiacais. Humberto, o mais velho, pisciano, visceral, encontra o eixo em Fernando, taurino, mais pragmático, mas não menos inventivo. Um desenha, o outro aperfeiçoa e os papéis são invertidos ao sabor dos ânimos de cada um. “Alguém nos perguntou como conseguimos trabalhar juntos durante todos esses anos e eu respondi: é simples, brigamos todos os dias”, brinca Fernando. Os big brothers ávidos por novidades conversaram com Casa Vogue na volta de um périplo em Londres. Por lá, causaram impacto ao interferir na arquitetura de Frank Loyd Write com uma imensa oca de palha na entrada do Vitra Design Museum. Outra peripécia que os manos deixam cravadas no tempo e no espaço, sem a menor pretensão e nenhum perfume de vaidade.

Casa Vogue: Na infância, vocês preferiam ir ao cinema e montar cabanas ao invés de jogar bola. Quais as influências estéticas que vocês absorveram naquele período e como isso interferiu na sua criação?

Humberto Campana: Nascemos numa cidade do interior, com um riacho no fundo. Pescávamos, construíamos esconderijos, no verão represávamos a água com pedras para fazer piscinas. À noite, sempre íamos ao cinema e, mesmo sendo menores de idade, conseguíamos ver os filmes de Stanley Kubrik, Pasoline, Fellini (o dono do cinema era nosso amigo). Gostávamos também de brincar com a terra, fazer horta, esculpir coisas em barro, criar. Não havia televisão, mas papai assinava algumas revistas e nós acompanhávamos, embasbacados, à construção de Brasília, com aqueles esqueletos de Niemeyer brotando no sertão. Tudo isso foi uma inspiração.

Fernando Campana: Tem a ver com Brotas, onde crescemos. Minha mãe era professora, meu pai, engenheiro agrônomo. No interior, as pessoas inventavam a vida com poucos recursos, estavam mais abertas à criatividade, assim como os nossos imigrantes italianos, que chegaram aqui pobres e tiveram que se virar. Essa coisa de melhorar a casa, de construir coisas para a casa, cuidar do jardim, de aperfeiçoar o espaço, sempre fez parte das nossas vidas, assim como outras referências. Quando vínhamos de trem para São Paulo para acompanhar meu pai em alguma visita à Secretaria da Fazenda, ficávamos fascinados com a Estação da Luz, que é espetacular. E o Masp, de Lina Bo Bardi… lembro de olhar aquilo e pensar “nossa, como é que ele para em pé?”

Casa Vogue: O sotaque brasileiro do seu traço e das matérias-primas é bastante explícito. Isso tem a ver com essa ligação com a terra?

Humberto Campana: Nossa trabalho é um retrato da nossa cultura, mas sem regionalismos. Talvez por isso o mercado internacional valorize tanto. Eles são bastante interessados nessa coisa do desenvolvimento sustentável, no que os países emergentes estão fazendo…

Casa Vogue. Há 20 anos, quando pouco se falava sobre sustentabilidade, os Campana já ganhavam o mundo com peças alternativas tramadas a partir de materiais recicláveis. Essa característica ecologicamente correta já era algo visionário ou foi intuição?

Humberto Campana: Acho que foi mais por necessidade do novo do que por consciência ou intuição. Quando começamos, há mais de duas décadas, ouvia-se muito que o brasileiro precisava se adequar à indústria. Como sempre tivemos paixão pelo design, resolvemos seguir outro caminho. O design italiano do pós-guerra, por exemplo, se reconstruiu a partir do nada. Então, se somos um país pobre, não high-tech, com tantos recursos alternativos, porquê não olhar para isso?

Casa Vogue: E o lado social, também é uma questão latente para vocês? Existem mensagens subliminares por trás do conceito?

Humberto Campana: A primeira intenção social do nosso trabalho é contaminar outros criadores. A cadeira Favela, por exemplo, carrega uma mensagem do tipo “faça você mesmo”. A própria favela que a inspirou, é algo maravilhoso, que fascina o mundo inteiro. Tirando a violência nessas comunidades, é surpreendente ver como as pessoas ali fazem coisas maravilhosas com tão pouco, como elas dão novas soluções a vestígios de madeira, de lixo. De volta ao social e ao processo em si, nossas criações também apostam no artesanato solidário, em agregar design ao trabalho de artesãos maravilhosos. O Brasil está repleto deles.

Casa Vogue: Fernando estudou arquitetura e Humberto, direito. Existe uma vertente mais racional ou emocional por parte de um ou de outro? Quem “viaja” no traço e quem estabalece os limites técnicos da criação?

Humberto Campana: Quando escolhi a profissão era a época da ditadura. Fomos criados para ser médicos, engenheiros, advogados. Eu queria ser artista e só investi no Direito por conta da Lygia Fagundes Telles, de quem eu era fã. Lia suas histórias sobre a Faculdade São Francisco, onde ela estudou, e queria o mesmo para mim. Me formei e vi que não era nada daquilo. Quanto ao processo, não acho que um seja exatamente mais ou menos participativo do que o outro. Criamos muito juntos, os dois são apaixonados por isso. O Fernando costuma dar forma aos meus sonhos, mas os papéis sempre se invertem também.

Fernando Campana: Sem dúvidas, o Humberto sonha mais. Eu sou muito mais pragmático, mas nós dois criamos e nós sempre alternamos o papel de aperfeiçoar o produto, viabilizá-lo, se for o caso.

Casa Vogue: Como estabelecer os limites entre arte e design na obra dos Irmãos Campana?

Fernando Campana: É difícil delinear limites entre uma coisa e outra. Seria como tentar separar o nosso lado capira da porção urbana. Nunca limitamos a nossa forma de ver as coisas. Começamos o nosso trabalho com arte, por exemplo, expondo as Desconfortáveis, uma série de cadeiras que nem se pareciam com cadeiras, numa galleria de arte. Não buscamos definições. Já desenhamos jóias para a H.Stern sem ser joalheiros e já desenhamos sandálias para a Melissa sem ser sapateiros… O que nos interessa é a criação.

Casa Vogue: O look divertido, com uma pitada lúdica, é uma das características marcantes do seu trabalho. De onde vem esse senso de humor?

Fernando Campana: Não somos sisudos, somos brasileiros (risos). Como todo brasileiro, não sofremos de mau-humor. O que você esperava de alguém que cresceu vendo de Stanley Kubrik a Mazzaropi? (rs)

Casa Vogue: Existe algum material que os Irmãos Campana ainda sonham em domar?

Fernando Campana: Acho que já domamos quase todos (risos). E vamos continuar pesquisando, pois é aí que está a graça da coisa. Vale usar tudo, desde que você não danifique o planeta. Mas já pensou numa cadeira de gás encapsulado em garrafinhas? Seria algo divertido…

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Written by AllexInCasa

abril 24, 2008 às 2:00 pm

Publicado em Sem categoria

16 Respostas

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  1. A poltrona dos ursos é meu sonho de consumo !!!
    Bjsss
    Denise

    Denise

    abril 24, 2008 at 3:16 pm

  2. que poltrona linda!

    Isaías Souza

    abril 24, 2008 at 4:22 pm

  3. Oi, Allex!!! Parabéns pelo blog!!! Está incrível!!
    Me identifiquei com o título, não sei porque.
    Um beijão e sucesso…

    Xuxu

    abril 24, 2008 at 6:11 pm

  4. L I N D O S !!!!!

    Rodrigo Almeida

    abril 24, 2008 at 11:08 pm

  5. Lindos, simplesmente lindos.

    beijo

    Francine

    abril 24, 2008 at 11:13 pm

  6. Olha o Colontonio aê gente….

    Parabéns.

    Vicente

    abril 24, 2008 at 11:14 pm

  7. Campanas na cabeça. Gosto muito dessas.

    parabéns

    Marina

    abril 24, 2008 at 11:17 pm

  8. Oi Lindo…
    Olha eu aqui novamente… não aguentei e tenho que comentar…rs…
    Amei a poltrona dos ursos….eu quero uma….
    Não me canso de falar… Parabéns…. vc merece todo sucesso do mundo.
    Bjs

    Patty Laquale

    abril 25, 2008 at 12:39 am

  9. Vc é único!! Como pode uma cabeça só fazer o que vc faz!! É impressionante…..dá vontade de ler e reler ….impressiona, comove, anestesia……dá vontade de gritar!!!!!
    Parabéns!
    Bjss
    Denise

    Denise

    abril 25, 2008 at 11:29 am

  10. Texto impecável, adorei as cadeiras mas confesso não teria uma dessas em minha casa!, vendo um pouco mais do seu blog eu encontrei o nome ideal para sua estante ” Clube da Esquina” fica a dica!! 🙂

    bjo

    Marcelo Hawkins

    abril 25, 2008 at 12:08 pm

  11. O blog tá o máximo.
    Sempre uma novidade. Novos estilos.

    Grande abraço

    Alexandre Campello

    abril 25, 2008 at 1:03 pm

  12. Maravilhosa a matéria …
    Parabéns !

    abs
    Fabiana

    Fabiana Freire

    abril 25, 2008 at 7:20 pm

  13. Alex, que espaço legal o seu. Sou sua fã a muitos anos na casa vogue. gostaria de sugerir um blog sobre cursos de design. estou interessado no assunto e sinto que falta informação sobre cursos. me ajuda? tem algum telefone que eu possa te ligar?

    beijo

    Margareth

    abril 26, 2008 at 2:33 am

  14. Gente, que legal! Nem sempre tenho tempo de responder, mas saibam que sempre tenho para ler – e me comover com o carinho de vocês. Denise, isaías, Xuxu, Rodrigo, Francine, Vicente, Marina, Patty, Marcelo, Fabiana, Alexandre..Tem gente que eu conheço, tem gente que eu não conheço mas adoraria conhecer. Enfim, amo muito tudo isso.

    Margareth, vou te mandar umas infos por e-mail, se vc deixar o seu endereço. Prometo um post sobre cursos de design no futuro.

    Beijos a todos.

    Allex

    Allex Colontonio

    abril 26, 2008 at 2:35 am

  15. O Vitra Museu é de Frank Ghery e não de Frank Loyd Write

    Adriana Klein

    agosto 31, 2009 at 3:20 pm

  16. Olá, Allex! Parabéns pelo blog! Está muito bacana!!
    Sucesso!!

    Fabiane Lorandi Valduga

    outubro 1, 2009 at 1:01 pm


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