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Um Milão, Meio Milão

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Embora tenha acompanhado tudo à distância (viva a tecnologia!) e abastecido este blog com uma ou outra pílula fresquinha made in Itália, não me sinto lá com muita moral para palpitar sobre aquilo que não vi ao vivo e em cores – no ano que vem, se o fechamento deixar, faço o link direto com vocês!

Como a proposta deste espaço é “antenar”, além de escolher uma poltrona “tudibão” para abrir os trabalhos do dia (a fofa Heaven, de Tokujin Yoshioka, inspirada num origami), convidei três personas de diferentes tribos, gente amiga que sabe tudo de design, para fazer o “disse-que-disse” da edição 2008 do Salão do Móvel. Cada um na sua área, mas todos decanos de um mesmo segmento (vide os perfis coletados especialmente para este post), eles dividem um pouquinho das suas impressões com a gente.

Quase todo mundo concorda com a superexposição de alguns nomes (numa lista de blockbusters encabeçada pelo onipresente Philippe Starck e seguida por Karim Rashid, Zaha Hadid e Ron Arad), e com a crise econômica mundial – um dos assuntos mais comentados nos bastidores. Mas, como disse Fabrizio Rollo, há também outra crise: uma incompatibilidade entre a expectativa do mercado consumidor e a produção dos criadores. “Crise financeira não deveria interferir na criatividade”, sentencia ele.

Aprecie este pequeno balanço nas óticas de Monsieur Rollo (colega de trabalho e enciclopédia ambulante de estilo), Taissa Buescu (jornalista, curadora e pau-para-toda-obra, nossa colaboratrix mezzo brasileira, mezzo italiana, sempre de olho nos hypes) e Débora Aguiar (arquiteta que trabalha 26 horas por dia – não perguntem de onde ela tira as outras duas – e ainda tem tempo de viajar para absorver tendências). La parola, tutti buona gente:


Fabrizio Rollo, arquiteto e editor de estilo

Prata da casa, sangue-azul, top-editor de moda e décor, professor e consultor, ariano convicto, jornalista, arquiteto, globe-trotter, toque de midas para mise-en-scenes em geral, nosso caríssimo compila os high-lights de Milão há 12 anos. Em 2008, comemora os seus 15 anos de carreira – sim, ele começou muito jovem e continua novinho em folha! “Sempre me interessei pelo belo, por essa busca por uma estética, no mínimo, agradável. Isso faz parte de mim desde os tempos de berço. Quando os meus pais construíram a casa onde moram até hoje – e estou falando do começo dos anos 70 -, todos os lustres e luminárias eram italianos, importados pela Dominicci. Já naquela época, ainda muito pequeno, era vidrado pela beleza dessas peças, dos abajures aos lustres do living. Mas nada era mais interessante do que os espelhinhos – os interruptores de luz, que em casa eram todos Arbame, com o design minimalista de placas de inox. O chique era ter Arbame, marca italiana! A Pial Legrand era popular. Aí, de brincadeira, julgava as casas dos meus amigos pelos interruptores. Era como olhar para alguém e focar os sapatos para checar a elegância. Anos depois, a Pial expandiu e incorporou a tal Arbame, desenvolvendo produtos de alto-padrão. O tempo passou, em casa alguns já foram trocados, mas confesso que adoro clicar no interruptor e acender a luz com Arbame”. Essa figuraça comenta o que viu no Milan Design Week:

De zero a dez, que nota você daria para a feira?

Se a média é 5, então 6 está de bom tamanho. Para os eventos fora da feira, a nota sobe para sete.

Na sua opinião, qual a peça mais bacana?

Fico com um nome menos conhecido, como Ruth Gurvich, argentina radicada em Paris que trabalha a porcelana como delicadas folhas de papel.

E a mais curiosa?

Curiosamente estranho: um bowl de resina da arquiteta Zaha Hadid para a Sawaya Moroni custar algo em torno de 28 mil euros! A supervalorização do seu nome não justifica. Simplesmente um absurdo, pois o bowl não é de nenhum material tecnologicamente revolucionário ou importando de Júpiter: é resina.

Quem fez falta no evento?

Ninguém em especial. A questão não são os criadores, mas as suas criações, que tendem para um comercial chato ou enclausurado em padrõs repetitivos e sem inovação.

Você faria alguma menção honrosa a algum item que o tenha surpreendido pela tecnologia ou pela engenhosidade?

Cito novamente as delicadas peças de porcelana desta artista argentina que estudou a arte da porcelana Limoges e conseguiu, com muita sutileza e refinamento, aplicar a técnica ao produto.

Que peça você nunca teria na sua casa (ou jamais indicaria a um amigo)?

As bizarrices de Zaha Hadid, frutos de formas computadorizadas e sem alma

O que foi uma revelação dentro do evento para você?

O Nicolas B. Lecompte, um amigo canadense que conheci no Brasil e apresentou no Salão Satélite uma escrivaninha de metal cromado e tampo de tiras finíssimas de couro, como naquelas raquetes (tipo esqui) utilizadas para não afundar na neve.

Quem deixou a desejar?

Edra, B&B Itália e Moooi não apresentaram nada de extraordinário, ao contrário: tudo muito fraco e repetitivo. Crise financeira não deveria afetar a criação.

Qual o seu melhor elogio à feira?

Em comparação com as ferias de outros países, o Salão de Milão e as respectivas empresas possuem material de imprensa suficiente e organizado para os profissionais. Os pavilhões localizados um frente ao outro, com escadas e esteiras rolantes, facilitam o acesso e a maratona “feirística”.

E uma crítica?

O tal bowl da Zaha, superfaturado.


Taissa Buescu, jornalista

Jornalista, advogada, curadora de arte e design, pisciana com ascendente em Leão, brasileira da gema – só que nascida em Nova York, se é que você me entende -, Taissa radicou-se na Itália em 2003. “Sempre amei design, desde quando trabalhava como advogada de Direito Societário. Naquela época era apenas hobby, hoje é profissão. Esta é a quinta vez que visito o Salone, sempre participando das montagens de stands ou das mostras – desta vez dirigi a Block Exhibition: Turkish Marble Meets Design de Istanbul, que rolou na Zona Tortona”, conta ela, que anda achando o movimento milanês meio fraco, inclusive: “É difícil ver coisas novas, realmente interessantes”. De malas prontas para a ICFF (feira de design de NY), a espivetadíssima repórter sempre despacha news direto de terras estrangeiras para Casa Vogue, como faz aqui e agora, para o in Casa:

De zero a dez, que nota você daria para feira?

Nota 7, porquê sou boazinha. Depois de 5 anos consecutivos de Salão, morando em Milão e tudo, é difícil ver coisas novas, realmente interessantes.

Na sua opinião, qual a peça mais bacana?

Amei a nova coleção da Moroso, principalmente a linha Tropicaliente, da Patricia Urquiola.

E a mais curiosa?

O novo gaveteiro desestruturado “Raw Edges Stack”, de Established & Sons.

Quem fez falta no evento?

Sergio Rodrigues, que fez muito sucesso por aqui no ano passado.

Você faria alguma menção honrosa a algo que a tenha surpreendido pela tecnologia ou pela engenhosidade?

A peça “Veil”, de Paul Cocksedge, realizada em pastilhas de cristal transparente Swarovski, montadas como uma cortina que, refletida no espelho, forma o rosto da Monalisa de Da Vince. Maravilhoso!

Qual peça você nunca teria na sua casa (ou jamais indicaria para a casa de um amigo)?

Todas da coleção Visionnaire, de Ipe Cavalli.

O que foi uma revelação dentro do evento para você?

A nova coleção da Meritalia superou as minhas expectativas, especialmente os móveis de plástico, iluminados por dentro, com design de Mario Bellini.

Quem deixou a desejar?

A coleção de Marcel Wanders, para a Poliform.

Qual o seu maior elogio à feira?

Quanto ao Salone del Mobile propriamente dito, no espaço expositivo de Maximiliano Fuksas, em RHO, o que tem de melhor lá, além da arquitetura arrojada, é a divisão dos pavilhões, muito bem feita. Todas as empresas que produzem design contemporâneo de qualidade estão reunidas em únicos pavilhões. Assim, dá para concentrar a visita em quatro pavilhões. Não é necessário girar a feira inteira par aver o que interessa.

E uma crítica?

É em relação aos eventos “Fuorisalone”. Cada ano tem mais e mais coisas para ver, mas a qualidade é cada vez mais baixa, a cada ano. Seria necessário uma curadoria geral para elevar o nível das mostras.


Débora Aguiar, arquiteta

Paulistana com 15 anos de carreira e um portfólio que transborda das fronteiras (seus projetos já carimbaram o passaporte em Dubai, Montreal, Madrid e Las Vegas), Débora já acompanhou in loco oito edições do Salão do Móvel de Milão. “Na Universidade de Arquitetura e Urbanismo, desde o primeiro dia de aula eu já fazia estágio no escritório Carlos Bratke. Depois trabalhei com Márcio Kogan e por último no Aflalo e Gasperini. Sempre quis ser independente e tinha pressa em fazer as coisas. Hoje, com a experiência, tenho o espírito um pouco mais calmo. Entendi que é necessário sempre muita inspiração e transpiração para conquistar as coisas.

Não sabia que queria ser arquiteta até realmente ser uma arquiteta. Há pessoas que sabem exatamente o que vão ser: médicos, advogados, engenheiros. Eu não sabia. Hoje, olhando para a minha vida e prestando atenção a tantos detalhes, vejo que tinha várias pinceladas arquitetônicas na minha infância… Quando fazia a casinha da boneca Susi, tinha até elevador. Ficava horas e horas desenhando. Enfim, a vida profissional é que faz o profissional. Os sinais estão aí, basta saber captar. Mas acredito muito na conjunção esforço + oportunidade para você evoluir. Desde o primeiro dia da faculdade já estava fazendo estágio. Queria crescer, ser independente, trabalhar”. Confira as suas impressões taurinas sobre a mais recente delas, de onde voltou na semana passada:

De zero a dez, que nota você daria para a feira?

Oito.

Na sua opinião, qual a peça mais bacana?

Entre tantas, vou citar a Minotti com sua poltrona Hopper.

E a mais curiosa?

A mesa de centro de vidro da Cassina, repleta de livros no seu interior.

Quem fez falta no evento?

A B&B Italia, que estava com uma mostra linda na sua própria loja, na Via Durini.

Você faria alguma menção honrosa a algo que a tenha surpreendido pela tecnologia ou pela engenhosidade?

Prefiro não eleger uma peça. A Flexform não parou de me surpreender, até com a ambientação do seu espaço na feira.

Qual peça você nunca teria na sua casa (ou jamais indicaria para a casa de um amigo)?

As que foram expostas no pavilhão dos clássicos.

O que foi uma revelação dentro do evento para você?

A Fendi assumindo o luxo com os seus acabamentos e detalhes.

Quem deixou a desejar?

Esta não foi a vez da Gervasone.

Qual o seu maior elogio à feira?

Como panorama geral, o evento é sempre importante. O pavilhão das cozinhas estava fantástico, houve muito empenho e inovação

E uma crítica?

A dificuldade e o tumulto na hora de sair da feira, coloca em teste a nossa boa educação.

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Written by AllexInCasa

abril 30, 2008 às 11:59 pm

Publicado em Sem categoria

8 Respostas

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  1. adoro o fabricio rolo. ele nasceu em Tupã cidade dos meus avós.

    Isabela

    maio 1, 2008 at 5:47 pm

  2. A melhor matéria sobre a feira de Milão *ever*. Parabéns meu ídolo&love!

    Andre Rodrigues

    maio 1, 2008 at 6:35 pm

  3. Vc é meu ídolo também,viu?
    bjssssssssssssss
    De

    Denise Delalamo

    maio 2, 2008 at 12:15 pm

  4. otima essa ideia de ter diferentes visoes do evento. ñ vou a milao a algum tempo mas as vezes que fui a coisa andava meio repetida. mas e o melhor evento do mundo do design,semduvida.
    um abraco e parabens pela cobertura.

    Dido

    Diego

    maio 3, 2008 at 12:44 am

  5. adoro os tres. mas acho milao uma industria de dinheiro e nada mais.

    Lourdes

    maio 6, 2008 at 10:34 pm

  6. Allex, bom dia !!! Venho seguindo seu blog e gostaria de lhe apresentar meus trabalhos. Abraços,

    Fabian Rodrigues

    setembro 8, 2008 at 11:35 am

  7. Sehr gute Seite. Ich habe es zu den Favoriten.

    mietwagen

    março 14, 2009 at 6:03 pm

  8. sou fã da Debora Aguiar… Para~´ens pelo grande e lindo trabalho vc me inspira minha casa…

    lya araujo

    julho 29, 2009 at 1:11 am


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