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Na sala com Danuza

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Sou da tribo dos chatos com casa, daqueles que curtem manter tudo na ordem do dia. Fico meio psicopata quando vejo um livro fora do lugar e assumo, um tanto quanto envergonhado, outra neurose: às vezes dou um pause no meio do filme só para dar uma ajeitadinha em algum objeto da estante – ok, prometo trabalhar isso e me esforçar para ser uma pessoa melhor. Mas a minha casa é absolutamente de verdade, sem cenografias.

Tudo o que está lá pode ser usado, tocado, analisado, usufruído, deleitado e, eventualmente, até quebrado – um amigo já queimou uma almofada com cigarro, outra chutou uma cerâmica de estimação na minha minúscula varanda. Na hora dói um pouco, mas e daí? A prerrogativa básica de quem gosta de receber visitas (e eu adoro), é deixá-las bem à vonts. Afinal, de que vale ter um cafofo bacana se ele é intocável? E tem gente que leva a coisa tão a sério que chega às raias do freak.

Tem um texto bárbaro da Danuza Leão, publicado na primeira edição da Piauí (leia o original aqui), sobre sua visita ao apartamento do costureiro Guilherme Guimarães, o Guigui. Achei aquilo tão antológico que colei um post-it na página, para voltar lá algum dia. Ontem tava dando uma ajeitadinha básica no armário das revistas e dei de cara com a tal matéria. Li – e me diverti – tudo de novo. Tanto que resolvi reproduzir alguns trechos aqui (será que vão me processar?). Leia e, pleaaaaaaaaaaaaase, confabule a respeito:

“O apartamento fica no térreo de um edifício antigo (no Brasil, antigo quer dizer anos 50). Atravessamos uma porta pesada, viramos à esquerda e caímos numa contradição: uma saleta enorme – quando é sabido que as saletas, por definição, são pequenas. A salinha ficou grande porque há espelhos por todo lado, do chão ao teto, refletindo um lustre de cristal um pouco menor do que a catedral de Chartres, cortinas pesadas como mármore e um deslumbrante busto marroquino, de mármore de verdade. O andar de baixo tem 150 metros quadrados. Guilherme achou pouco e comprou o de cima, com 180 metros. Cada centímetro cúbico está ocupado por bibelôs, peças de antiguidade, objetos artísticos, adereços, cadeiras, almofadas, tapeçarias, biombos, estatuetas, cinzeiros, revistas, tapetes de zebra com rabo e tudo, pufes, poltronas forradas de pele de tigre, porta-retratos com fotos das maiores amigas do proprietário, estantes com livros encadernados em couro, vasos de todos os tamanhos e formatos, troços, coisas, trecos. Orgulhoso, ele nos mostra um pequeno tinteiro recoberto com couro de crocodilo negro do Nilo, e com estabilizador, para o caso de o navio balançar – foi do Titanic. Guilherme sabe de onde cada objeto veio, quando o comprou e onde o viu pela primeira vez. Ele aponta tudo, e, estranhamente, não nos convida a sentar. Parece um tanto aflito quando ameaçamos tocar em algo. Esclarece que é proibido sentar nos sofás e cadeiras, para não amassar as almofadas de plumas. Também não se bate a cinza nos cinzeiros, para não sujar. Uma de suas muitas loucuras é ter a casa arrumada em excesso, arrumadéssima, repleta de flores e com suas centenas de objetos no lugar certo. Se um deles estiver um centímetro mais para lá ou para cá, ele, enquanto conversa, dá uns passinhos curtos e o põe no ponto exato em que deveria estar. Aos amigos, serve Black Label, que ele faz o sacrifício de tomar, às vezes.Champagne, nem pensar.Se vir um pote de margarina na microcozinha, é capaz de ter um troço. Comida, em sua casa, sob nenhuma hipótese – e empregada também não. Luiz, o faxineiro, vai uma vez por semana fazer a limpeza, e é proibido de emitir qualquer som enquanto trabalha… (.) Seguimos para um restaurante das imediações… (.) Terminado o jantar, acha melhor pegar um táxi, apesar de estar a cem metros de casa. Seguimos juntos no táxi, que faz uma volta imensa, pois o prédio dele fica na contramão. A última surpresa: Guilherme manda o carro parar na frente do Hotel Glória. E nos informa, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que nunca, nunca mesmo, dorme no apartamento. Ele tem uma suíte permanente no Glória, e sempre dorme nela quando está no Rio. ‘Faço como Mlle. Chanel, que morava na rue Cambon, mas dormia no Ritz.’ Meu palpite: dorme fora para não desarrumar a cama.”

Não é ótimo? Excêntrico sou eu!

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Written by AllexInCasa

julho 23, 2008 às 6:17 pm

Publicado em Sem categoria

11 Respostas

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  1. lindos textos. o seu e o de Danuza.

    Mila

    julho 23, 2008 at 9:52 pm

  2. oi allex! sensacional! eu tenho que confessar que tb sou um pouquinho (?) assim… adoro tudo no seu “devido lugar”, talvez por uma questão estética… será (risos)? bem, eu sou psicóloga, então nem me pergunte o que acho disso!!! talvez sejamos apenas organizados demais! tomara!!! bjs!

    Claudia Pimenta

    julho 23, 2008 at 11:26 pm

  3. Oi Allex, adorei conhecer seu blog! Vou voltar sempre!
    Gosto muita da Danuza!
    Qdo puder, passa no meu blog!
    Um beijinho, Talitha

    Talitha Rossi

    julho 23, 2008 at 11:51 pm

  4. Genial

    Deborah

    julho 24, 2008 at 12:14 am

  5. Muito bom! No meio de texto eu já estava imaginando o meu irmão no lugar do Guilherme – idênticos!
    Beijo, Allex!

    Lara

    julho 24, 2008 at 5:31 pm

  6. rs. Danuza é incrivel.

    Lia

    julho 24, 2008 at 8:32 pm

  7. Não é casa, é um museu!Rs

    Tina

    julho 25, 2008 at 11:04 am

  8. Adooooooro Danuza!Adorei o texto…
    Bj

    Fabi

    julho 25, 2008 at 12:33 pm

  9. Sensacional! Fez bem em reproduzir e compartilhar com a gente essa jóia de texto. Gosto do blog, viu? Abs.

    Sylvain

    julho 28, 2008 at 6:33 pm

  10. mas quero agora conhecer esse apartamento do guigui !
    adorei a partilha do texto !

    visitante !

    julho 28, 2008 at 11:09 pm

  11. inacreditável…

    Ruth

    abril 5, 2010 at 7:59 pm


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