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Comédia da vida privada

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Parque do Ibirapuera, sexta-feira ensolarada, julho de 2008. Transeuntes sarados (ou tentando chegar lá) em vai-e-vem, a pé, a bordo de bikes, skates, patins, patinetes e i-pods, cantarolam as modinhas da vez. Algazarra da molecada aproveitando o final das férias julinas na “praia do paulistano”. Banhistas do concreto passeiam com seus pets e alimentam os cisnes do lago (pobres penosas) com pipoca na groselha e salgadinhos de isopor – tão cruel para o fígado dos pobrezinhos quanto entubar o ganso para fazer foie gras.


Cruzamos a cena, alienígenas àquele contexto (eu + Ana Lúcia Arruda, minha jornalista- pupila, e Tamara Emy, arteira em fuga). É a segunda vez que baixo no Ibira este mês, em pleno horário comercial – a primeira foi semana passada, para o Primeiro Fórum Internacional de Blogueiros que rolou lá no Planetário, sob a batuta do Marcelo Tas.


Cruzamos a linha de chegada do Museu de Arte Moderna de São Paulo, razão motriz da nossa escapada da redação. Diante da vitrine onde pousa a aranha gigante da escultora francesa Louise Bourgeois, um grupo atônito discute: “Se esse ‘troço’ estivesse na rua, alguém teria coragem de chamá-lo de arte?”. Disfarçando a minha bisbilhotice, presto atenção ao comentário e entro incomodado na expo “Marcel Duchamp: uma obra de arte que não é uma obra de arte”.

Quando o MAM (www.mam.org.br) abriu as portas, 60 anos atrás, Ciccillo Matarazzo, seu mecenas, recebeu uma carta de próprio punho de Duchamp, oferecendo uma mostra inaugural. Se na época a coisa não vingou (juro que não consegui identificar o motivo), hoje, quando o MAM completa 60 anos, o artista franco-americano ganha sua primeira individual na América Latina.
No começo do século 20, Duchamp atirou latrina abaixo (literalmente) o conceito formal da arte, refutando a idéia do mero prazer estético com “ready-mades” armados em rodas de bicicleta, vasos-sanitários e outros objetos ordinários. Essa subversão, que fazia a cabeça de surrealistas como André Breton, grande entusiasta de Duchamp, provocava uma única questão: “Pode alguém fazer uma obra que não seja arte?”. Com isso, ele negou a idéia de que a industrialização e a tecnologia seriam responsáveis pelo desenvolvimento e evolução da humanidade. As 120 obras em cartaz no MAM são, em sua maioria, réplicas, já que boa parte dos originais foi atirada ao lixo pela irmã do sujeito, para quem aquilo não passava de “sucata”. Talvez por isso, quarenta anos após a morte do mestre da contestação que abriu alas para outros transgressores como Madame Bourgeois, seu legado continue estimulando controvérsia na porta do museu.


Volto para o trabalho me sentindo meio ignóbil (feito aquele grupo da entrada), com um tanto de culpa, me perguntando se eu não estou sendo tão algoz da expressão artística não convencional quanto a mana do Duchamp. Explico. Já contei aqui que tô ajudando a minha mãe no extreame makeover da casa dela, né? Mama, que por um lado é a pessoa mais generosa do mundo, ao ponto de tirar a roupa do próprio corpo para doá-la ao primeiro friorento que surgir na frente dela, por outro, tem um apego quase patológico com as coisas da casa. Guarda de tudo um pouco e um pouco de tudo: de vidrinhos de maionese à jornais velhos (muito velhos), passando pelos potes de sorvete (que, para ela, são tupewares de primeiríssima) e pelas máquinas de costura quebradas (detalhe: ela não costura). Nesse processo todo, o mais desgastante para este pobre coitado que vos escreve, além de lidar com os mandos e desmandos de sua excelência o pedreiro (um dia você ainda vai enfrentar um), é convencê-la a se livrar de certas coisas, a dissolver o acúmulo. Imagine que, para o meu total desespero, ela tentou reciclar uma privada à moda de Duchamp, instalando ali (pasme!) uma viçosa e rechonchuda samambaia, tipo um eco-vaso-sanitário-cenográfico.


Até deu vontade de levá-la ao MAM, mas seria como aumentar a força bélica do inimigo: já pensou no tanto de idéias que a Dona Nely teria a partir das viagens engenhosas deste gênio da subversão? Melhor evitar…

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Written by AllexInCasa

agosto 1, 2008 às 5:21 pm

Publicado em Sem categoria

4 Respostas

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  1. eu admiro esse espírito subversivo, e adoro esse artista, mas as obras que eu considero mais bacanas ficam esquecidas quando se fala de duchamp… anyway…

    tamara

    agosto 1, 2008 at 7:16 pm

  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Lucas

    agosto 2, 2008 at 3:46 pm

  3. oi allex! cada vez que me defronto com duchamp, sempre fica algo que não sei explicar… esta semana mesmo falava dele, sobre este corte que ele causou na arte (?)… me faz pensar, sabe? mas, a arte é p/isso, não? bjs e bom fim de semana!

    Claudia Pimenta

    agosto 2, 2008 at 6:35 pm

  4. Sem dúvida duchamp é relevante na historia da arte e sua evolução, porém não há uma só alma que não pare na frente do miquitório e pense que merd… é essa(mesmo que a peça seja relacionada à xixi). A reflexão do que é arte abriu indiscutivelmente inumeras novas expressões artisticas e também muita porcaria que tráz consigo a descredibilidade das pessoas quando se fala em artista, dia desses fiquei horrorizado quando vi na coluna social uma foto da Folha de São Paulo um garotinho com a sua isca de piaba pra fora fazendo xixi em cima da instalação da mãe, claro que a mando da mesma……
    Acharia isso lindo se o nome da instalaçao fosse: “Educação infantil, eu mijo nisso ”
    Sem mais a acrescentar finalizo aqui e puxa a descarga sem esquecer de baixar a tampa se não minha mulher me mata.

    Décio Barros

    agosto 3, 2008 at 12:08 am


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