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Mobília Popular Brasileira

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Adoro MPB, o gênero musical, desde que me entendo por gente. Principalmente a dita MPB vintage (morro de preguiça desta nova safra de cantores-clone produzidos em série – principalmente as cantoras –, e dos movimentos pasteurizados que revisitam a pseudo-bossa e a pseudo-fossa das antigas, com muito sampler e pouca personalidade).

Ao ponto: sexta-feira passada fui ver o documentário “Ninguém sabe o duro que dei”, que conta a saga de um dos maiores nomes do nosso cancioneiro popular: Wilson Simonal. Dirigido por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, o filme tenta suturar a imagem do artista na memória do povão, já que, depois de viver dias de Frank Sinatra nos anos 60 (o cara fez um über-sucesso com as massas) ele foi sentenciado ao oblívio (entre as décadas de 70 e 90) por acusações de envolvimento com o DOPS. Simonal morreu em 2000, duro e praticamente esquecido, sem homenagens, sem glamour, sem perdão, com o filme carbonizado tanto pela esquerda, quanto pela direita. “Esquecemos de absolver o Simonal”, escreveu Mario Prata na época. Nunca ninguém provou nada contra o sujeito, muito ao contrário: ele passou os últimos dias da sua vida tentando se livrar da pecha de alcagoete, chacoalhando, em programetes de auditório, um documento oficial do Ministério da Justiça atestando isenção de qualquer vínculo, em qualquer época, com o DOPS. Mesmo banido do circuito, o cantor deixou mais do que uma obra do balacobaco (que, espero, engate um fôlego a partir do impulso do cinema): seu DNA continua saltitando no ótimo trabalho dos herdeiros Max de Castro e Simoninha, gente boa que pintou na gênese da gravadora Trama (conheço os caras desde a época do movimento paulista Artistas Reunidos, embrião de uma renovação na cena, antes do boom da pasteurização a que me refiro lá em cima).

De volta ao assunto-combustível deste blog (o resto é só link culturete), outra MPB que faz a minha cabeça é a Mobília Popular Brasileira, tramada por uma gente cheia de ginga nas curvas – tal e qual Simonal swingava suas notas. Em cartaz na loja-galeria Passado Composto Século XX (www.passadocomposto.com.br), a partir de junho, a expo “Sempre Modernos” promete reunir um elenco de peso: Joaquim Tenreiro, Sergio Rodrigues, Jorge Zalszupin e Jean Gillon. São cerca de 40 peças originais (móveis, tapeçarias, estudos e objetos), pinçadas tanto no acervo da loja como em coleções particulares. “É uma oportunidade de conhecer preciosidades de um período especialmente rico da história do design brasileiro”, diz Adélia Borges, curadora da mostra e uma das maiores autoridades do design por essas bandas.

Todas as peças expostas são originais, a maioria produzida com o jacarandá-da-bahia, madeira de grande durabilidade e qualidade, quase totalmente extinta. “Por sua qualidade estética e técnica, os móveis desse período alcançaram o atributo de clássicos atemporais”, explica Borges.

Assim como a carreira de Simonal, esses móveis já tiveram seus dias de desprezo, e só muito recentemente começaram a ser devidamente valorizados. “Antiquários e casas de leilões da Europa e Estados Unidos, até então dedicados quase exclusivamente a obras européias, passaram a trabalhar com produtos made in Brazil, que têm alcançado enorme prestígio e reconhecimento. Um dos exemplos é a cadeira Três Pés, de Joaquim Tenreiro, que foi vendida em Nova York, em 2004, por US$ 54 mil e em 2006, alcançou a cotação de US$ 250 mil, segundo reportagem publicada na revista especializada Art+Auction” contou Sandra Sobral, que faz a comunicação do evento.

Seja qual for a sua MPB favorita, para sacudir geral, pesquei no Youtube uma cena espetacular que faz parte de “Ninguém sabe o duro que dei”: Simonal em dueto com ninguém menos que Sarah Vaughan, a diva que divide com Billie Holiday e Ella Fitzgerald a santíssima trindade matriarcal do jazz:

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Written by AllexInCasa

maio 25, 2009 às 4:47 pm

6 Respostas

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  1. Nossa muito legal mesmo…me lembro de quando comecei a trabalhar c/ o SIMONINHA foi em um show tributo ao SIMONAL 3 dias após seu falecimento …foi muito emocionante !

    Dedé

    maio 25, 2009 at 8:12 pm

  2. lindos trabalhos ,lindas escolhas e linda iniciativa…

    rodrigo almeida

    maio 26, 2009 at 1:04 am

  3. Adorei o trocadilho da “Mobília Popular Brasileira”. Pra mim, o post foi ainda mais especial por causa do Simonal – a música que mais repete na minha trilha sonora é dele. Beijo grande e obrigada pela força de sempre!
    [Quando der, clica lá: http://www.youtube.com/watch?v=ssHV0eTCeTc ]

    Lara Muniz

    maio 26, 2009 at 12:23 pm

  4. Muito interessante e cultural, agora o que me dizem de um conjunto de sala de jantar em jacarandá paulista, sendo um Buffet grande com tres gavetas grandes e duas portas laterais, um menor com duas portas e uma mesa de jantar com prolongador e 11 cadeiras, sendo duas com apoios de braços para serem usadas por visitas na ante sala? Estão com minha família há mais ou menos 80 anos e gostaria de comercializar e de preferência para outra fa~ilia com espaço.
    Grato,
    Francisco R.B. Ohl

    Francisco

    maio 26, 2009 at 6:51 pm

  5. A cadeira em destaque, que acompanha um descansador de pés, é dentre as criaçoes, a que mais admiro. Gostaria de dizer que, aqui em Salvador, Bahia, meu irmão tem um móvel deste modelo, também original e muito bem conservado. Mas nào só a cadeira, mas também o sofá e a poltrona do mesmo criador, tudo muito bem conservado. Parabens ao criador, e parabéns ao meu irmão e minha cunhada, por terem conservado um bem tão valioso.

    Anônimo

    maio 26, 2009 at 8:33 pm

  6. Oi, Alex,
    Sou estudante de arquitetura e estou no meio da minha monografia de graduação, que aborda questões do design brasileiro de mobiliário e de objetos decorativos.
    Seu post sobre a “Sempre Modernos” me chamou a atenção.
    Vc saberia informar os nomes e designers dos móveis das figuras? ou a fonte das figuras?
    Agradeço a ajuda e o post em si. Parabéns!

    Flávia Bayma

    junho 13, 2009 at 1:22 pm


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